segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A Chita: Do Popular Para A Moda

No Brasil atual, não se pode falar nas estampas sem se falar em chita. E não se pode falar em chita sem falar em povo. A chita nasceu pano popular. Vestiu populações carentes, escravos. Era o paninho barato, de fácil acesso ao povo. Cresceu, apareceu se espalhou e se transformou “na cara do Brasil”.
As roupas de Chitão já foram característica do movimento hippie, identificando-se com o poder dos jovens, flower power, o feminismo, black power, paz e amor, o psicodelismo, as mudanças radicais. As repressões militares estagnaram o setor têxtil, fechando 130 tecelagens em três anos; enquanto isso os norte-americanos criavam tecidos com fibras sintéticas que não amassavam. Criou-se então no Brasil o GEITEX - Grupo Executivo da Indústria Têxtil - que estabeleceu metas para corrigir a situação e conseguiu o apoio do governo às empresas para a fabricação de morim, chita estampada e outros nove tipos de tecidos (MELÃO; IMBROISI e KUBRUSLY, (2005).
As Chitas vestiram personagens de novelas como é o caso de Gabriela de Jorge Amado, o apresentador Chacrinha e foram usadas pela estilista Zuzu Angel; também vestiram Gilberto Gil, Caetano Veloso, passando a ser uma assinatura da alma brasileira durante a repressão.
No Brasil, depois de séculos vestindo trabalhadores braçais, moradores de zonas rurais, meninas das festas de interior, entre outros, a chita fez parte do movimento hippie e foi parar nas passarelas internacionais. Zuzu Angel (1923-1976), estilista brasileira vítima da ditadura militar no país, foi pioneira no uso do tecido em suas ousadas coleções e o levou em uma viagem de volta à Europa, completando assim um círculo de evolução e um retorno às origens. “A chita no corpo e no cenário dos movimentos artísticos e revolucionários, em plena vitória da repressão, era uma assinatura da alma brasileira, um desafio, quase um descaramento.” (MELLÃO, 2005, p. 127).
Além das roupas, o universo dos acessórios de moda também passou a utilizá-la.
O Tropicalismo nascido na Arte Conceitual de Oiticica (1937-1980) e Clark (1920-1988) e que teve adesão de músicos, cineastas e intelectuais brasileiros, revolucionou a música popular brasileira em 1968, intervindo na cena cultural do país de forma crítica e vestiu-se com a já então brasileiríssima chita. Podemos dizer que o Tropicalismo tornou fato as palavras de Flügel: “[...] que o não conformismo nas roupas tende naturalmente a expressar o não-conformismo em ideias sociais e políticas”. (FLÜGEL, 1966, p. 189).
Os anos 70 trouxeram um enorme colorido e transformações no vestuário, principalmente feminino, sendo uma porta aberta para a entrada e consagração da chita como tecido da mulher brasileira. Na telenovela de 1975 da Rede Globo de Televisão, Gabriela, a pobre, linda e sensual protagonista, vestida de chita, lançou moda e foi imitada por milhares de brasileiras, transformando em moda algo tão próximo da realidade popular, como Mellão nos conta em seu livro: “[...] o vestidinho de chita já era considerado indispensável para a mulher brasileira: básico, simples, fresquinho, ideal para o verão que aquece dois terços deste país durante três terços do ano”. (MELLÃO, 2005, p. 71).
O caminho da chita partindo da moda e migrando para a decoração foi percorrido naturalmente. A mesma chita que vestia os menos favorecidos, camponeses, ex-escravos, já enfeitava as casas modestas do povo brasileiro. Aos poucos foi invadindo casas da cidade como estilo de decoração autêntica, podendo ser encontrada nas cortinas, almofadas, toalhas de mesa, entre outros, talvez como uma maneira de transportar para dentro de casa a exuberância da natureza tão inacessível nas cidades mais desenvolvidas.
Nossas chitas, de puro algodão, sempre muito coloridas e geralmente mostrando motivos florais, podem ser vistas tanto em colchas e cortinas de humildes casebres quanto na decoração de ricas sedes de fazendas ou, ainda, alegrando danças folclóricas e festas juninas. (PEZZOLO, 2007, p.49)
Hoje, o que caracteriza o chitão são as dimensões e as cores de suas estampas florais. Se alguém fizer essa estampa sobre outro suporte que não seja morim, certamente a referência do novo tecido será “estampa de chitão”.

A Chita Na Moda

A chita já nos deu o que olhar, agora nos dá o que falar! Através de viagens, pesquisas e entrevistas realizadas durante três anos, em parceria com Renato Imbroisi, foi possível reunir no livro “Que chita bacana” preciosas informações sobre este tecido encantador que, com certeza, faz parte do nosso patrimônio cultural. Como não vivemos só de passado, idealizamos esta exposição com o objetivo de sinalizar novos caminhos para a chita. Contando com o entusiasmo e talento dos estilistas, apresentamos aqui o resultado deste desafio. Impregnada de cultura popular, a chita alia-se à moda brasileira para juntas marcarem sua estreia no espaço museológico.
Fotos: http://www.acasa.org.br/